Quando digo que te amo mais impressão

A Prostituta- Verídico

2020.10.14 12:21 DonaBruxa_Deyse A Prostituta- Verídico

🕷🕸Relato recebido. Foi contado por uma mulher sobre seu contato com Setealém.🕸🕷
Eu sou Brasileira e morei em Milão/Itália entre os anos de 2003 à 2015.
Minha mãe tinha cidadania italiana, pois na sua juventude tinha sido modelo e morado na Itália. No seu tempo, chegou até a atuar em alguns filmes do de Sica. Mas minha mãe era fria, ruim, maldosa. Não dava a mínima pra mim. Ela era alcoólatra e me batia desde sempre.
Nunca conheci meu pai. Ela jamais citou seu nome. Sempre imaginei que fosse um italiano famoso e mantive a esperança de encontrá-lo. Minha avó era boa e me confortava após as surras. Contava que minha mãe nem sempre fora assim. Que era doce, meiga, sorridente. Mas que depois que voltou de vez da Itália pro Brasil, nunca mais fora a mesma. Tinha se transformado num monstro e que nem a reconhecia mais. Eu só pensava em fugir de casa. Minha avó morreu em 2002. Fiquei ainda mais sozinha.
Quando fui descoberta como modelo, não pensei duas vezes e fui embora. Minha mãe assinou os documentos e pela primeira vez na minha vida, parecia feliz por estar se livrando de mim.
Cheguei em Milão com 15 anos na esperança de seguir carreira como modelo. Sai do Brasil com um contrato assinado para desfiles de modas e realmente, desfilei por 2 anos. Porém, muitas meninas chegavam com o mesmo sonho, por ser um mercado com muita competição, os trabalhos foram diminuindo. Morava num apartamento perto de monte Napoleone e dividia com mais 5 garotas também modelos.
Comecei a trabalhar como vendedora pra uma loja de grife: Chanel. Mesmo recebendo comissão, era muito cara o estilo de vida que levava e tinha o sonho de ter sucesso na vida.
Uma das minhas colegas de apartamento, não escondia de nós que trabalhava como Ragazza imagine em danceterias e saia com clientes ricos depois dessas noitadas. Na verdade, ela era uma garota de programa e saia com a nata da sociedade milanesa.
Eu estava de saco cheio daquela vida e eu mesma pedi que ela me apresentasse para seu “chefe”. Era uma agência de “modelos”. Fiz fotos para um “book” que seria exibido para clientes que procuravam meninas com o meu perfil. O cachê para esses encontros partiam do valor de €1.500,00 por três horas de encontro. Esse valor livre em minhas mãos.
Nesse período em que trabalhei pra essa agência, sai com jogadores de futebol, políticos, artistas, sheikes árabes, milionários… Rolava sexo e muita droga. Eram homens generosíssimos e além do cachê pré combinado, ganhava gorjetas e muitos presentes. Nós não éramos obrigadas a usar, mas confesso que tornou-se um vício também. Numa sexta-feira, fomos chamadas para comparecer na agência.
Foi nos explicado que um cliente muito importante escolheria 7 garotas para um “evento”. Seria pago 17 mil euros para cada antecipadamente. As escolhidas seriam levadas por um motorista na data e horário combinado è trazidas de volta no fim do evento. Deveríamos assinar um termo de silêncio e que nada visto ou ouvido poderia ser divulgado. Meus olhos brilharam ao imaginar o valor que seria pago. Entrou então um avaliador. Ele estava ali para escolher as 7 meninas. Ele vestia terno caríssimo, sapatos que brilhavam, luvas pretas de couro, óculos escuros, mas eu pude sentir um desconforto toda vez que ele olhava para mim. Ele não falava nada. Parecia fraco, adoentado mesmo, pele amarelada. Todas as meninas vestiram biquínis, formamos uma fila e começamos a desfilar para ele. Ele apenas apontava o dedo para as que escolhia. Eu fui uma delas. Vibrei por dentro.
Houve uma segunda etapa da seleção, onde tínhamos que responder uma sequência de perguntas, que não faziam muito sentido naquele momento:
Você mora sozinha? Acredita em Deus e outros seres? Você tem medo do escuro? Transaria com um réptil? Qual período de tempo mais longo que aguentaria ficar sem beber água ou líquido? Acredita em orações ou rezas? Sabe dizer uma de cor nesse momento? Já ficou presa dentro de um quarto sozinha numa casa desconhecida? Você se considera uma pessoa capaz de guardar segredos? Se você desaparecesse, alguém sentiria sua falta?
Entre outras perguntas totalmente sem nexo....mas enfim, ricos são excêntricos, pensei!
Sai de la, com meus euros garantidos, porque no fim do processo, cada uma das 7 recebeu na conta o valor combinado. Deveríamos ir lindas e o tema da festa era “Mascarados”.
Sai da agência tão feliz. Resolvi comprar vestido, sapatos e bolsas novas. Comprei perfume e maquiagem. A festa seria na noite seguinte e meu motorista me buscaria as 19 horas em ponto.
No horário combinado, toda linda, eu aguardava no hall de entrada do prédio o tal motorista.
No termo que assinei dizia que não nos era permitido o uso/ portar nenhum aparelho fotográfico ou celular.
Então, parou um carro preto antigo, muito velho e desceu um homem tão estranho quanto o que me escolheu na seleção da agência.
Ainda assim de forma educada, sem olhar para mim, abriu e fechou a porta do carro.
Ele não trocou uma palavra comigo durante uma hora e meia até chegar ao local do evento.
Sabia que estávamos na região do lago de Como, mas nunca vira ali na Itália uma estrada tão deserta. Não cruzamos com nenhum Autogrill. Até chegarmos a um castelo antigo, que a primeira vista parecia abandonado. Estávamos no meio do nada e ali tinha um castelo! Ao adentrar no castelo, vi no meio do salão minhas 6 amigas. Estávamos lindas, ansiosas. Nos cumprimentávamos, quando ouvimos 7 rufadas de um tambor. Congelamos. Apareceu uma mulher vestida de preto e seu rosto escondia-se atrás de uma telinha do seu fascinator. Fez sinal para que a seguíssemos e fomos até outra sala ainda maior. Antes de entrarmos nessa segunda sala, a cada uma de nós foi perguntado ( pela senhora de preto): -Acredita na unidade daquele que é um só? Todas nós respondemos que sim ( nem sei dizer porque respondi que sim) e entramos no grande salão. Estava escuro e de repente, mais sete rufadas de tambor e a nossa frente, uma luz amarela acendeu. Era uma luz amarelada estranha, meio fraca, piscava e a nossa frente surgiam pessoas mais estranhas ainda. Ouvimos uma música que nos perturbava. Ficamos sem reação. Deveríamos dançar? Conversar? Sorrir?
Notei que aquelas pessoas pareciam pertencer a uma alta classe social porque por mais estranhas que fossem, havia muita pompa no modo delas vestirem-se e portarem-se. Repito que era tudo estranho e feio! Havia homens e mulheres e até crianças mascaradas naquela festa! Pessoas ricas com roupas tão surradas? Havia um cheiro muito forte no ar. Como se algo tivesse estragado ou em putrefação. A música era a mesma e eu já não entendia nada. Aos poucos, homens mascarados se aproximavam. Um deles, cambaleando chegou até mim, sorriu e NÃO TINHA DENTES. Me disse algo e seu hálito me atingiu... Inconscientemente, levei a não até a boca e nariz! Quase vomitei. Ainda assim, disfarcei e sorri. Quando ele encostou a mão gelada no meu antebraço, senti que cairia no chão.
Ele pressionou meu braço e me levou para dançar. Se é que aquilo seria dançar... davam uns pulos, tinham trejeitos e a falta de coordenação daquele povo poderia ser considerado patético!
Suportei por bem uns 10 minutos aquele bafo, mãos geladas sobre mim... Até que pedi algo para beber. Ele disse numa voz rouca mas fina, que não tínhamos permissão para beber nem comer.
Gente, que absurdo.
Porém, tinha levado meu pozinho mágico e seria obrigada a usá-lo para aguentar aquele show de horrores. Lembrando que já tinha embolsado meu dinheirinho, estava tudo Ok. Pedi para usar o banheiro e então a senhora de preto me levou. Iluminando o caminho com uma vela preta. O banheiro era a coisa mais NOJENTA que há vi na vida.
As privadas estavam todas sujas de m€£%¥. Tinha até vermes na água que fica parada no vaso. Pedaços de carne podres! Não tinha descarga. Ao tinha torneiras. Desisti de fazer xixi. Usei minha bolsa de apoio e fiz a maior carreira de minha vida. Quando voltei para o salão as pessoas tinham desaparecido. Só tinha uma mulher mascarada que me observava. Resolvi que deveria puxar assunto e caminhei na direção dela. Faltavam 5 passos e vi que uma senhora também de preto a arrastou. A mascarada gritou: - Eu sou você! ( disse meu nome!!!)Vá embora! Fuja daqui! Nós liberte desse inferno! Na confusão, sua máscara cai e pude ver seu rosto. Aquela mulher era idêntica a mim! Era eu num outro corpo. Nada pude fazer... A vi ser levada. Minhas colegas já tinham sumido e eu fiquei sozinha ali. Senti as mãos geladas no meu braço outra vez. Era aquele horrorizo novamente. O povo parecia ser muito ruim de festa. Ninguém falava, ninguém tia ou cantava, vão podíamos comer ou beber! Fui levada até um quarto . Passamos por corredores frios e escuros. Eu e ele! Meu coração batia forte... Não sabia se era a droga ou o medo. Comecei a escutar gritos ao passar por outros quartos. Chegamos ao “nosso” quarto! Era tão ridículo e feio quanto todo o resto até aquele momento.
Uma vela preta estava acesa. A única luz naquele quarto frio.
Tinha chegado a hora.. Teria que fazer jus ao dinheiro pago por aquela noite. Estava arrependida já!
Comecei a me despir, o homem, tirou a máscara e falou:
-NÃO OUSE!
Paralisei!
-Sente-se!
Ela falou comigo sem abrir a boca!
Sentei e ele me explicou:
-Eu sou seu irmão. Sou filho da mulher que gritou seu nome. Meu pai aprisionou ela aqui há anos. Ele é prefeito aqui. Você está num lugar que não existe. Aqui é o meio. Aqui é Sathlem ( algo assim)... Não sei escrever ou repetir. Prometi à ela que te libertaria. Suas amigas jamais voltarão. Já pertecem a esse lugar.
Quanto mais ele falava, mais lúcida eu ficava. Será que esse pozinho era tão forte assim? Só pensava nisso?!? Como eu poderia estar pensando nisso?Meu Deus, estou tendo uma overdose! Não é possível!
E o estranho concluiu meu PENSAMENTO: - Não, você não está alucinando ou alterada. Você foi despertada pelo UM SÓ! Não fale mais nada para não desperta-lo!
Comecei a chorar! Queria devolver o dinheiro! Queria ir embora.
Comecei a ouvir passos... Como se um gigante se aproximasse. O estranho fez sinal para eu calar a boca. Não era capaz de controlar meu choro. Até o estranho pressionar com o dedo um ponto na minha garganta! Doeu muito. Ouvi ele pedindo desculpas por fazer aquilo e perdi os sentidos.
Acordei na minha cama. Estava com o vestido e sapatos da festa.
Tinha um bilhete escrito na comoda do quarto escrito assim:
Senti tanto medo. Jurei que nunca mais beberia ou me drogaria na vida e pararia com aquele “trabalho” Realmente, nunca mais fiz nada daquilo.
Meu telefone tocou e era o agente. Precisava ir até a agência.
Fodeu, pensei! Fodeu, fodeu, fodeu!
Mas fui... Porque sabia que se vão fosse, eles viriam ate mim. Meio que você começa a fazer parte da máfia! Você tem que prestar contas!
Fui com o coração na mão! Bom, pensava a, gastei o dinheiro somente com o vestido, bolsa, sapatos e maquiagens. Não tinha gastado tanto e teria como cobrir os gastos e devolver os 17 mil.
Quando cheguei lá, o agente me tratou tão bem... Disse que eu tinha sido venerada e exaltada. Que tinha sido profissional e me destacado . Gostaram tanto de mim que pediram meus dados bancários porque me fariam um agrado!
Entendi que o agente tinha sido recompensado. Perguntei sobre minhas colegas e ele mudei de assunto: -Que colegas? De quem você está falando?
(NUNCA MAIS AS VI!) Não eram amigas. Nas as viagem festas e tal... Jamais as vi novamente.
Fui até um ATM e quando solicitei meu saldo, quase caí de costas! Havia sido depositado na minha conta alguns muitosssss 00000000000 de euros.
Com essa grana, mudei minha vidaComprei um apartamento e carro. Estudei. Conheci um grande amor. Tenho filhos. Moramos na Bélgica. Sou estilista de moda e tenho minha grife!
Tenho sonhos recorrentes com aquele lugar onde estive. Meu marido sempre comenta ter a sensação de estar sendo seguido ou observado. Diz ver carros estranhos parados na rua de casa. Comenta sobre carros estranhos! Digo que é apenas impressão dele!
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2020.04.10 00:44 CabacinhoBreaker Conto: Carta Para Zeca

Quanto tempo leva para uma reflexão tomar forma dentro do circuito do pensamento emotivo? Emoção é a reação do que afeta direta ou indiretamente o nosso campo de sensores que são vastos, digo isso para todos aqueles que creem no invisível e que salta aos olhos como uma silhueta na escuridão. Está tão perto e tão latente mas, qual a medida para entender tudo isso? A razão é a balança dos aflitos que velejam numa nau à pique.
Zeca observava o mundo de longe certo de que estava antes daquela vírgula da existência, essa que faz refletir, protegido no receptáculo de sua antena parabólica ficava estático ele mesmo, assistia a novela de Rebeca sua vizinha, nascida de dias e com uma mãe desastrada. Batia de lá e de cá seu corpo mas nunca deixando a recém nascida amassar nas portas, embora parecesse que o pai quisesse. Zeca já tinha testemunhado o pai, grande e corpulento, de olhos fundos e nariz perfurante, olhando para a mãe, passava para Rebeca, e parecendo um surto de arrependimento da existência da menina, fechava a porta na cara da mãe. Ela não prestava, e parecia um vegetal, ele era quem dava energia para uma casa toda com seus dedos que pegavam o que queria na sua geladeira fedida; seus pés descalços que descarregavam toda uma tensão da casa, o que Zeca achava engraçado, se pudesse passar a navalha nesse calcanhar invisível da mágoa ele desjuntaria o pé inteiro.
De conversa com ela uma vez Zeca insistiu no motivo de ela estar onde estava, a mãe olhava a menina com uns olhinhos de jabuticaba que dava brilho no canto, daí olhava para o chão e virava o olho para dentro buscando uma saída do que ele não podia evitar, daí lançava a mão parecendo que ia descolar do corpo, mole de lado, dizendo que quem sustentava a casa era ele e Rebeca era uma inspiração de vida! Desse jeito mesmo que saía, ela botava tanta convicção que as palavras vibravam quando saiam de sua boca, a última até parecia uma moeda que estava debaixo da língua e escapou sem querer. Olhei nos olhos dela, rasos.
Agora Zeca insiste em tomar uma dose de verdade todo dia, recolher todas essas moedas que caem dos olhos e das bocas de seus amigos, juntando tudo um dia talvez ele compre a tão sonhada liberdade que ele persegue de dentro de seu barquinho.
“Mandai a faísca de um raio pra me iluminar
Segura pedra na pedreira não deixa rolar
Xangô, Kaô meu pai
Seus filhos bambeiam mas não caem”
Zeca
Carta Para Zeca
Olá meu querido amigo, como você está? Espero que bem.
Eu estava mexendo nuns papéis antigos e reli uma crônica que você me fez 3 anos atrás, lembrei tanto de você esses tempos que resolvi escrever.
Hoje é dia 24 de dezembro e está um calor danado aqui em São Bernardo, me mudei para o Silvina depois de uns dois meses que a Rebeca nasceu e foi uma das melhores coisas que fiz; a casa é bem maior, porém fica bem perto do ponto de ônibus lá na ponta do morro.
Por falar em Rebeca ela não para mais. Anda de um lado pro outro Zeca como se fosse a rainha da casa, pega as panelas e bate tudo no chão. Devaldo nem liga mais depois de comprar a quinta, e eu não faço questão também, ela precisa de brinquedos e eu me viro como posso sabe?
Falando nele, sua crônica foi importantíssima para mim Zeca, você sempre me estimulou a escrever e só fiz isso agora, depois de anos, porque me sinto muito mais segura e motivada. Ainda lembro de cada palavra sua. É claro que é meio desconcertante também, você escreve tão bem e eu não sabia nem articular o que se passava dentro de mim, agora vou te falar, da melhor forma que eu encontrar.
Devaldo parecia que tinha desistido de tudo, aquele jeito turrão e mandão dele de ser passou depois do primeiro ano da nossa filha, eu agradeci muito à Deus, mas ainda faltava alguma coisa sabe? Ele parecia fantasma dentro de casa Zeca, a gente não tinha brigado nem nada e ele me procurava bem pouco para fazer amor, dizia que a rotina do serviço estava acabando com ele mas eu não precisava me preocupar com nada, que focasse na pequena pra ela não ficar que nem as “meninas do pé do morro”. Elas gostam muito de transar Zeca, e com qualquer um que passe no pé do morro, qualquer um; eu já vi elas no mato e não vou nem dizer como porque quero esquecer.
Depois de ver aquilo dei razão pro meu marido, e mesmo ele me tratando um pouco melhor ainda não era o meu ideal, ele foi meu primeiro homem e eu esperava tanto dele, mas seus problemas sempre futucavam nosso lazer; fim de semana tinha um extra no serviço que era imperdível, mais seis horas longe de sua família, o que virou rotina depois de um tempo fazendo isso; pegou confiança e virou o ponta firme na firma que não faltava em nada.
Quanta decpção. Quando Rebeca fez um ano que desastrou tudo, ainda bem que tenho meus amigos lá do morro pra me dar assistência e fumar um né? Quem tem filho fuma também, não me julgue.
Eu acostumei não ter mais a presença dele em casa aos poucos, Rebeca sempre foi bem quieta e não me tomava muito tempo para o cuidado, mas isso porque amo essa menina e nunca me deixou nervosa. O fato é que comecei a me sentir bem sozinha, e carente sabe? Sem nenhum contato. Eu procurava Devaldo e ele nem aí pra mim, até que um dia aconteceu um troço inesperado Zeca, eu tinha mensagens de um crush do ônibus que queria porque queria me conhecer.
Não me julgue por falar o que vou falar. O nome dele era Jonas e disse que queria me conhecer, eu falei que pessoalmente não, mas a conversa foi rolando, eu disse da minha filha e ele me mostrou a dele, uma mulher já de dezesseis anos toda formada, o cara era “velho” e eu tinha vinte. Claro, não mencionei Devaldo pra ele.
Ele me dava toda a assistência que eu estava querendo, perguntava como foi meu dia, me ouvia, e a gente conversava sobre tudo Zeca, só achei uma coisa estranha. A primeira vez que ele me ligou achei super esquisito, sabe aqueles homens que tem a voz bem fina? Era a dele, mas chegava a parecer uma garota em certos momentos. Achei estranho mas foi só impressão.
Jonas não me faltava em nada, ele me fazia sentir como se fosse uma menininha de novo, ás vezes eu até esquecia que tinha um marido em casa Zeca, cheguei até a olhar pro Devaldo pensando nele, nas fotos que me mandava… sinto vergonha disso mas é a verdade. Mas também nunca fui tão fundo assim com ele, por mais que fosse gostoso eu não conhecia ele de fato e não ficava mandando fotos nem nada, mas me deixava num fogo que eu virava um rio.
Depois de uns quatro meses na conversa eu criei coragem e fui atrás dele, chamei para marcar um encontro e liguei né, ele esperava tanto por esse momento que o telefone quase não deu o primeiro toque. “Eu preciso te contar uma coisa antes da gente se ver”. O que era agora já que ele queria tanto? Esperei os trinta segundos mais longos da minha vida até que ele despejou tudo sem ensaio. Eu sou mulher.
Foram só três palavras, mas me deram uma rasteira literal, eu que estava em pé caí sentada no chão da cozinha Zeca, eu não podia acreditar. Fiz muitas perguntas e ela me respondeu todas com muita calma, apesar da minha revolta. Me disse que realmente pegava ônibus comigo e me achou linda, e depois de uma visita no face chamou um amigo dela, o Jonas. Ele fornecia tudo em tempo real, mas nos telefonemas e áudios era ela mesma.
Falei várias vezes pra ela que não gosto da mesma coisa que tenho no meio das pernas, não vejo graça Zeca. Ela ficou super triste, ainda mais quando teve que me passar o telefone do Jonas de verdade, queria pelo menos conhecer o cara que me apaixonei. Já faz um tempo que isso aconteceu e mesmo assim ainda lembro vez ou outra, me enganaram de uma esdruxula e me lembro exatamente como me senti.
Me lembrei de você e tudo que me dizia, tentei descrever o que sentia. Você já passou por isso; você passa uma noite inteira na rua, sozinho e com frio, e encontra um cantinho pra encostar e cochila por lá mesmo até o Sol começar despontar e tocar sua pele, te aquecendo aos poucos até brilhar bem forte e você voltar pra casa. Eu voltei para casa Zeca.
Deixei tudo isso de lado e pesquisei sobre aquilo que você me falava sempre, que a vida é efêmera e é importante viver bem; hoje entendo o que você me dizia. Fui nessa semana também no lugar que recebem os espíritos que você ia, me pediram para ter juízo olha só! Eu não discordei, até gostei da sensação que me trouxe.
Eu comecei a prestar mais atenção em casa depois do que aconteceu, e tive mais coragem para me abrir e falar com Devaldo, ás vezes eu só precisava estimular ele um pouco, e com o tempo ele foi me olhando de outra forma, viu que podia cofiar em mim como parceira; o stress do trabalho até diminuiu e o tempo dele lá também, começamos uma fase tão bonita Zeca. O espaço que ele preenchia com seus dedos agora tinha um toque mais sutil, e mesmo que o hábito ruim de olhar o telefone do outro tinha ido embora fazia um tempo me bateu uma curiosidade. Descobri que ele me traiu duas vezes com a mesma pessoa, ele transou com outra.
Não falamos disso nunca, ele não sabe que sei e eu não guardo rancor, ele se arrependeu nas mensagens com a garota e depois que as coisas melhoraram entre a gente me sinto muito mais feliz. Não vou dizer que o amo, mas me sinto apaixonada por ele cada dia mais, estamos nos descobrindo juntos Zeca. Não vou tomar mais o seu tempo, só queria dizer que o canto que você morava está muito bem iluminado agora.
Ontem o Pepeu me chamou pra fumar lá no escadão e disse que tinha uma surpresa, e que surpresa Zeca! Enquanto a gente fumava olhando pro Montanhão ele começou a iluminar todinho, foi ascendendo de baixo para cima, nunca vi ele tão bonito. O morro agora tem luz na rua.
Não me aguentei, olhei pra cima e comecei chorar quando vi que a Lua se encaixava bem na ponta do morro, parecia até que tinha sentado no campinho de terra; a árvore de natal mais bonita que montaram pra gente meu bem. Pepeu chorou comigo, dava pra ver os bracinhos balançando lá da ponta do morro de alegria.
Você faz falta Zeca, tiraram sua vida tão curta cara, mas como você mesmo diz, a vida é efêmera. Vou guardar sempre no meu coração a lembrança de cada momento e prometo abrir a mente de alguém com o que você me ensinou, e me ensina ainda. Vou queimar essa carta no pé do morro, quem sabe um dia quando você passar por lá veja todas essas palavras na poeira.
Te amo meu amigo.
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2016.05.12 19:54 marcusbright Uma odisseia - Como consegui bolsas de estudo para os EUA, França & Austrália. Texto longo.

RESUMO:
Nasci em São Luís do Maranhão, e sempre quis trabalhar com cinema. Em 2010 consegui uma bolsa de estudos 100% para estudar em uma das 10 melhores escolas de cinema dos EUA. Em 2014 retornei para o Brasil, e voltarei para os EUA em Agosto para cursar Mestrado na mesma universidade, também com bolsa integral. Desta vez o plano é ficar por lá e conseguir residência fixa.
 
Sempre que falo que estudei nos EUA recebo as mesmas perguntas. Deixo aqui um apanhado das minhas experiências nos últimos 10 anos em relação à estudar fora. Já existem vários guias onlines sobre o assunto, mas são quase todos genéricos e não abordam as questões específicas. Por isso, vou ser bem detalhista neste relato, que deve fica bem longo.
Além do mais, muitas vezes a conversa online se resume em “Casei com uma Americana” ou “Tenho cidadania europeia.” O que, sejamos sinceros, não ajuda muito quem não tem essas coisas. O meu caminho foi o do estudo, e é um caminho que, em teoria, todos podem seguir.
 
Esse relato é específico para O MEU CASO. Você pode conseguir uma bolsa de um jeito COMPLETAMENTE DIFERENTE, que desconheço. Posto minha experiência aqui para servir como REFERÊNCIA de como foi que funcionou pra mim e como foi minha vida durante o processo. Também dividi o texto em seções para facilitar a leitura de quem procurar um assunto específico.
 
MEU BACKGROUND
Sou de família classe média, filho de dois professores. Então, até mesmo por influência dos meus pais, sempre tive um foco muito grande na minha educação. Sempre fui nerd. Gostava de ler e passava horas na Wikipédia caçando links e definições. Credito à essa curiosidade e vontade de ir atrás de informação todo o sucesso que tive na vida. Creio inclusive ser um perfil bem comum aqui no Reddit, visto que têm uma predominância muito grande de pessoas autodidatas, especialmente programadores, e pessoas que geralmente procuram se manter bem informadas.
Se você for rico, pra ser sincero, ir pra fora não é um problema. Existem mil maneiras. Entrar numa universidade qualquer lá fora não é difícil (com exceção das top, claro).
O difícil é pagar.
 
MINHA DECISÃO
Sempre quis fazer cinema. Sempre mesmo. Não tenho memória de nenhum momento na minha vida em que este não fosse meu sonho. Mas foi quando eu tinha uns 10 anos que concretizei meu objetivo: “Quero ser diretor de cinema”. Assistindo entrevistas com meus diretores favoritos na época, ficou claro que todos eles tinham feito curso superior na área. Nos anos seguintes, começei a ficar mais consciente dos cursos de cinema no Brasil, e os que mais me chamaram atenção foram os da USP e da FAAP, considerados os melhores do país. Mas algumas coisas me incomodavam no geral:
 
  1. Os cursos brasileiros eram em grande parte extremamente teóricos. Amo teoria, mas acredito que ela deve informar a prática e vice-versa.
  2. No Brasil, cinema tende a ser uma concentração nos cursos de Comunicação. Lá fora são cursos específicos de Cinema.
  3. Equipamento e instalações defasados.
  4. A indústria cinematográfica no Brasil não era praticamente nada comparada à de outros países.
  5. Aquele povo chato de humanas (sou de esquerda, mas pfv né?)
 
E, claro, eram todos cursos muito longe de São Luís, MA. Pensei: “Porra, São Paulo e Los Angeles são ambos longe pra cacete, vou tentar ir pra LA logo.”
 
ENSINO MÉDIO
Durante o EM, começei a focar minhas atenções acadêmicas no cinema. Começei a comprar livros e estudar muito a respeito de roteiro, decupagem, fotografia, edição, em fim, a me aprofundar no assunto.
Na escola, convenci minha professora de Redação a me deixar escrever roteiros de curtas ao invés daquelas redações insossas. Para minha surpresa, ela concordou.
Eu era muito caseiro e apegado à família. Quando expressei vontade de estudar fora, ambos meus pais acharam que eu devia fazer um intercâmbio de curta-duração antes, pra crescer um pouco e aprender a me virar sozinho.
No começo a gente ficou meio receoso do investimento, mas acabou que não foi tão caro e meus pais tinham um dinheiro guardado. Acabei concordando e fui parar no Kansas por um ano letivo.
Não tinha nada pra fazer no Kansas em termos de cinema. Mas fui bem na escola, e me dediquei muito à História Americana . Também participei de muitas atividades extracurriculares. Participei do clube de competição de trivia, robótica, estudos avançados, etc.
Também fiz o SAT e o ACT, que são os ENEMs americanos (ambos se focam em matemática e inglês) usados para ingressar nas faculdades. Fui medíocre em ambos. Fiquei no nível da média nacional.
Terminei o ensino médio no Kansas e voltei pro Brasil em 2008 com um diploma americano.
 
O PROCESSO
“E agora?”
Foi essa a pergunta que eu fiz. Estava de volta no Brasil, formado no Ensino Médio. Como chegar nos EUA?
 
OS OBSTÁCULOS
Comecei a entrar em sites de universidades americanas e me familiarizar com os termos, processos de admissão, assim como procurar as melhores escolas de cinema. Queria ter feito isso antes. Era tudo muito confuso. Termos como admissions, financial aid, scholarships, fellowships, tuition and fees, eram completamente estrangeiros pra mim.
 
Mas logo ficou claro que eu tinha dois obstáculos à superar:
 
  1. Ser aceito em uma boa escola de cinema.
  2. Pagar uma boa escola de cinema. A anuidade das grandes universidades giravam em torno de 40.000 dólares. O salário dos meus pais não chega nem perto disso, nem o que eu ganhava como freelancer. Eu precisava de uma bolsa 100% da anuidade, e as despesas pessoais (moradia, alimentação, transporte) a gente podia economizar durante um ano pra pagar.
 
Para deixar claro: o preço é esse mesmo, e hoje está até mais alto. E isso não é só pra estrangeiro não. Americanos também pagam essa soma ridícula. A diferença é que eles recebem bolsas do governo federal e podem tirar empréstimo estudantis com os bancos. Não é raro para os Americanos se formarem com dezenas (até centenas!) de milhares de dólares em dívida. De fato, essa é uma pauta cada vez mais quente, e muitos estão preocupados com essa bolha de empréstimos estudantil.
 
Nós, brazucas, não podemos receber auxilio federal e também não podemos tirar empréstimos nos bancos lá (a não ser que você tenha um fiador que seja cidadão Americano).
 
Eu não tinha nenhum fiador, e nem queria passar décadas da minha vida em dívida, então sobraram 2 opções:
 
  1. Conseguir uma bolsa 100% da própria universidade
  2. Conseguir uma bolsa 100% de instituições privadas.
 
CONSEGUIR BOLSA DA PRÓPRIA UNIVERSIDADE
Que eu saiba, todas as universidades americanas oferecem bolsas de estudos. Mas são majoritariamente bolsas parciais. Bolsas de 2, 5, 10 mil dólares. Bolsas integrais são o santo-graal das bolsas de estudos.
E aqui começa o primeiro empecilho sério pros brazucas.
Para ser considerado para bolsas de estudo, você precisa ser aceito na universidade.
Para ser aceito na universidade, você precisa provar que pode pagar por ela.
É isso aí, catch-22 total.
Você precisa provar pra escola que tem grana no banco suficiente pra te sustentar durante o primeiro ano de estudos (anuidade, estadia, alimentação, saúde). Isso é um requerimento do Departamento de Estado Americano. Só assim a escola pode te aceitar e emitir o I-20, documento que você leva na embaixada pra tirar o visto de estudante.
Já ouvi falar de gente que pede pra parente rico enviar um extrato bancário e coisas do tipo, só pra ser aceito e ser considerado pra bolsa. Eu não conhecia ninguém rico, e nem tenho a cara-de-pau de pedir algo assim.
 
Apenas 5 universidades são exceção. Atualmente estas aceitam qualquer estudante estrangeiro e se comprometem de cara a cobrir todos os gastos necessário para os estudos.
 
  1. Amherst College
  2. Harvard University
  3. Massachusetts Institute of Technology
  4. Princeton University
  5. Yale University
 
Estas são as cinco universidades que são need-blind e full-need para estrangeiros.
 
*Need-blind: não pedem prova de que você pode pagar.
*Full-need: se comprometem a cobrir toda sua necessidade financeira.
 
Infelizmente nenhuma destas universidades têm curso de Cinema. Então nem considerei.
 
CONSEGUIR BOLSA DE INSTITUIÇÃO PRIVADA
Se você não conseguir ser aceito com bolsa diretamente na universidade, a solução é ir procurar em instituições privadas.
Existem várias instituições com programa de bolsas. Desde empresas que financiam a educação para seus empregados e filhos de empregados, até fundações filantrópicas.
 
Aqui no Brasil, acho que a mais famosa é o Programa de Bolsas da Fundação Estudar: https://bolsas.estudar.org.b
 
O processo é muito chato e têm várias etapas. Entrevista por Skype, Entrevista em pessoa, Dinamicas de grupo (argh!), etc. É uma putaria sem fim. Sem contar que é tudo feito no eixo RJ-SP, ou seja, eu teria que pegar um vôo pra SP pra participar de cada etapa (que ocorrem ao longo de vários meses). Mas o que mais me irritou foi que não divulgavam os valores da bolsa. Podia ser integral, podia ser parcial. Mesmo que eu fizesse todas as etapas e ainda fosse um dos contemplados, ainda podia acabar com uma bolsa de só 20%. Ainda teria que arcar com o resto. Sem chance. Se você mora nessa região e não precisa se locomover muito para participar das etapas de seleção, pode ser uma boa. Eu nem tentei.
 
Outras fontes para encontrar bolsas são a Universia: http://bolsas.universia.com.b
O Rotary também oferece bolsas, mas não conheço detalhes: http://www.bolsas.academicis.org/2014/03/rotary-internacional-oferece-bolsas-de.html
 
E, finalmente, descobri o Programa de Bolsas do IBEU/IIE: http://portal.ibeu.org.bsou-ibeu/estude-nos-eua/ibeuiie/
 
O programa contemplava alunos de todas as áreas, guiava os alunos por todo o processo de admissão nas universidades, e articulava bolsas com as próprias escolas (hoje o site diz que são só bolsas parciais, mas tenho a impressão que é só para não dar falsas esperanças…)
O processo todo podia ser feito à distância, e eu só precisaria ir pro RJ para uma entrevista caso fosse um dos finalistas.
 
Ótimo. Me inscrevi.
 
Precisei enviar uma série de redações (essays) e testes acadêmicos. Listo abaixo cada dos itens.
 
  1. Study Objective: Esta é a sua Carta de Intenção. Você precisa delinear os seus objetivos acadêmicos. Qual curso quer fazer? Qual especialização? Por quê? Como você vai colocar esse conhecimento em prática na sua carreira? Você têm experiência relevante na área? Explique.
  2. Biographical Essay: Basicamente a história da tua vida. Onde você nasceu, seus pais, família, figuras que te influenciaram, eventos que marcaram sua vida e o tornaram a pessoa que você é hoje.
  3. Personal Essay: Essa é uma carta pessoal. O objetivo é mostrar para o comitê de seleção quem você é como pessoal, não aluno. Você pode falar de uma experiência importante na sua vida, um risco alto que você tomou, alguma questão local, nacional ou internacional que seja de grande importância para você; algum filme, livro ou obra de arte que deixou uma profunda marca em você, ou algum tópico de sua escolha.
  4. Cartas de recomendação: 3 cartas de professores, chefes de trabalho ou colegas de profissão.
  5. TOEFL: O teste de inglês usado para entrar em todas universidades americanas. Meu inglês já era fluente, mas precisei pegar um vôo para Belém para fazer a prova (não era realizada em São Luís).
  6. SAT: Esta prova eu já tinha feito no Kansas. Eu não tinha ido bem, mas não tinha grana pra fazer de novo. Custa caro. Então usei a minha nota baixa mesmo.
  7. 3 SAT SUBJECTs: Esta são provas complementares do SAT que se focam em diferentes disciplinas. Você precisa fazer 3 disciplinas. Tive que ir pra Brasília fazer estas... Escolhi fazer as provas de História Americana (achei que impressionaria o comitê), Biologia (meus pais são professores de biologia. Então foi sussa) e Espanhol (nunca tive aula de Espanhol. Mas depois de fazer um simulado percebi como a prova era fácil. Quase fechei. E fiquei parecendo trilíngue).
 
Depois de meses de ansiedade, recebi o e-mail comunicando que eu era um finalista e estava convocado para a entrevista no RJ.
 
Compareci à entrevista, super nervoso. Me perguntaram sobre várias coisas que mencionei nas redações, e no final me informaram que eu tinha feito tudo completamente errado na Personal Essay. Era pra escrever uma coisa pessoal mesmo, tipo, algo que você escreveria num diário ou uma carta para um amigo. Eu tinha escrito um ensaio sobre o status do cinema como literatura do séc XX… Eles me explicaram como era pra fazer e mandar de novo (e fizeram questão de dizer que acharam o ensaio muito interessante).
Na saida, retardado como sou, nervoso pra cacete, digo “Tchau. Boa Noite.” Era 1h da tarde.
 
Semana seguinte recebo a lista dos 15 selecionados, e vejo meu nome na lista. Aí começa o processo de seleção de universidade.
 
ESCOLHENDO A UNIVERSIDADE
O IBEU, que trabalha como representante do IIE (Institute of International Education), pede uma lista das universidades em que eu quero tentar ingressar. Eu, claro, dou a lista das melhores escolhas de cinema que conhecia. UCLA, USC, NYU e Columbia.
O IIE olha as minhas escolhas, olha as minhas notas, redações, testes, etc. e dá um parecer, tipo: “A USC é muito mesquinha com bolsas, e suas notas não são boas o suficiente. Ou, a NYU não dá bolsa nenhuma.”
 
Ao final, disseram basicamente que eu não tinha chances em nenhuma dessas escolas. Fiquei bem chateado. Mas eles ofereçeram uma lista de escolas mais de acordo com meu perfil, onde eu tinha mais chances de ser aceito com bolsa. Uma dessas escolas era a Chapman University, e procurando online logo descobri ser uma das 10 melhores dos EUA.
 
Acabei tentando minha sorte na Chapman e algumas outras de menos calibre. Acho que ao todo tentei em 6 universidades.
Fui aceito em 5 universidades, e recebi oferta de bolsas nas 5. Duas destas cinco eram 100% da anuidade. E uma destas era a Chapman. De longe a melhor escola na minha lista.
Foi assim que fui estudar cinema nos EUA em 2010. Ao todo, levei dois anos entre terminar o Ensino Médio e começar o Superior. Nesses dois anos, não tentei entrar numa escola brasileira e nem arranjei emprego fixo. Trabalhei em projetos pessoais e freelancer, fazendo curtas, escrevendo roteiros, editando projetos, construindo portfolio.
 
Reconheço que fui incrivelmente abençoado por pais que deixaram o filho passar DOIS ANOS seguindo um sonho impossível, e sei que nem todos têm esse privilégio. Se você ainda está cursando o EM, recomendo tentar já. O ciclo de admissões para as universidades Americanas leva o ano inteiro.
 
A FRANÇA ENTRA NA HISTÓRIA
Em 2010 começei meus estudos na Califórnia. Assim que cheguei na escola, percebi que ela tinha um programa de estudos no exterior muito forte. Cerca de metade dos alunos passavam pelo menos um semestre no exterior.
Conferindo a lista de programas e escolas parceiras, vi que a Chapman tinha parceria com uma escola em Cannes, na França. Um semestre, culminando com um estágio no Festival de Cannes. E o melhor, a minha bolsa da Chapman era transferível para a escola na França. Eu só precisava pagar a passagem aérea.
 
Conversei com meus professores e orientadores e tracei todas as disciplinas que eu cursaria em cada semestre ao longo de 4 anos. Queria garantir que passar um semestre no exterior não atrasaria minha graduação. Isso é importantíssimo, já que as bolsas Americanas são renováveis por no máximo 4 anos.
Planejei com 1 ano e meio de antecedência. Comecei a fazer aulas de Francês na própria Chapman (essas aulas contavam como optativas), e em 2012 fui pra Cannes falando um Francês intermediário-baixo. Passei 6 meses estudando um intensivo da língua, história da arte francesa, e viajando pela Europa.
 
DE VOLTA PARA OS EUA E PREPARAÇÃO PARA MESTRADO
Em Agosto de 2012 estava de volta na Califórnia.
À essa altura eu já estava pensando no que fazer após a graduação, já que o visto ia expirar e eu queria continuar nos EUA.
Não é fácil. Após a graduação você pode passar 1 ano numa autorização de trabalho provisória chamada OPT (Optional Practical Training). Basicamente, vc se forma e tem um ano pra adquirir experiencia de trabalho antes do seu visto expirar (2 anos em caso de ser aluno STEM).
Depois disso, pra continuar com visto de trabalho, vc precisa ter uma empresa disposta a te patrocinar e te contratar em tempo integral. É um processo caro e chato, então a empresa tem que gostar muito de você pra passar por isso. Cinema é uma área de freelancers. Então a possibilidade de conseguir uma empresa disposta a te contratar num salário fixo, em tempo integral, é muito baixa.
 
Ficou claro, por diversas razões, que é muito mais fácil conseguir isso se você tem um Mestrado, e ru já queria fazer Mestrado mesmo. Minha educação sempre foi motivo de orgulho e prazer, então um Mestrado sempre foi certeza.
 
Decidi: “Vou fazer Mestrado.”
À essa altura, eu precisava declarar uma concentração no curso de Bacharel. Uma especialidade (roteiro, fotografia, etc.) Era muito importante me formar em algo que serviria como BASE para desenvolver trabalhos numa pós. Isso é importantíssimos pros Americano. Se você quer fazer pós em Direito, por exemplo, faça graduação em Relações Internacionais, ou História, ou Literatura. Também era importante ser algo que eu pudesse usar para pagar as contas, fazer meus próprios filmes. Enfim, ser auto-suficiente.
 
Declarei meu Bacharel em Animação e Efeitos Visuais, com esperança de fazer Mestrado em Direção e Roteiro Cinematográfico.
A partir de então, eu fiz TUDO que pudesse para me tornar um bom candidato para curso de Mestrado. As famosas atividades extracurriculares. Escrevi críticas de filmes para o jornal da escola. Trabalhei como Supervisor de Efeitos Visuais em vários projetos de amigos (um inclusive venceu um BAFTA). Me inscrevi em um programa educacional da Chapman que me permitiu escrever um roteiro de longa metragem sob a mentoria de uma produtora vencedora do Oscar. Fiz disciplinas optativas em Lógica, Filosofia, História, Teoria do Cinema, Inglês, enfim, tudo tudo tudo. Fui tesoureiro de um clube acadêmico e ajudei a organizar eventos.
 
A FULBRIGHT
Em 2014 retornei ao Brasil. Foi uma decisão dificílima de fazer, e muitas vezes achei ter cometido um erro terrível. Qualquer pessoa com bom senso teria ficado nos EUA com o OPT e ralado para encontrar um emprego qualquer e torcer pra conseguir um visto. Eu nunca gostei de torcer pra nada, sempre minimizar o acaso. Achei que tinha mais chances de conseguir uma bolsa pra Mestrado do Brasil do que um trabalho nos EUA.
A minha grande esperança era a Bolsa Fulbright: http://fulbright.org.bbolsas-para-brasileiros/
Pra quem não sabe, o Programa Fulbright é o mais prestigioso programa de bolsas dos Estados Unidos. Eles dão bolsas para Americanos estudarem fora e para estrangeiros estudarem nos EUA. 54 bolsistas chegaram a ganhar o Prêmio Nobel. 82 chegaram a levar o Pulitzer.
A Fulbright têm um programa específicos para Brasileiros que querem cursar Mestrado em Cinema nos EUA. O processo é praticamente idêntico ao do IBEU (ambos são coordenados pelo IIE). Esse programa era meu alvo.
E o melhor, a Fulbright oferecia, em conjunto com a CAPES, além da anuidade: seguro saúde, transporte aéreo e bolsa manutenção. É o sonho.
Então enviei minha inscrição pra Fulbright.
 
Não passei nem para as etapas finais. Fui eliminado quase de cara.
 
Passei duas semanas deprimido. “Voltei pro Brasil só pra conseguir essa bolsa e falhei.” Encarei a realidade. Tinha perdido minha chance de ficar nos EUA. De volta à estaca zero. Me mudei para São Paulo pra tentar tocar a vida como animador ou algo da área.
Ao mesmo tempo, comecei a procurar programa de bolsas para terminar meus estudos em outros países. Depois de ver a qualidade do ensino lá fora, não queria mesmo estudar cinema no Brasil.
 
PRÊMIOS CHEVENING, ENDEAVOUR & ORANGE TULIP
Como os EUA têm a Fulbright e o Brasil tem a CAPES, imaginei que outros países deviam ter orgãos similares. Fui procurar e descobri que o Reino Unido tem o Chevening Award, a Austrália têm o Endeavour Award, e a Holanda têm o Orange Tulip.
Todos são basicamente a mesma coisa. O mesmo tipo de processo. Bolsas de Pós para facilitar o enriquecimento mútuo entre ambas nações.
 
O Chevening Award requer uma experiencia prévia muito grande na área de trabalho, e eu era apenas um recém-formado. Como a Fulbright, cobre praticamente tudo, incluindo ajuda de custo para materiais acadêmicos, custo da tese de mestrado, taxa do visto e alojamento, entre outros. http://www.chevening.org/brazil
 
O Orange Tulip é um pouco mais limitado. Criado em 2012, o programa oferece bolsas com valores fixos para cursos e disciplinas pré-aprovados. https://www.nesobrazil.org/bolsas-de-estudo/orange-tulip-scholarship
 
O Endeavour Award é diferente. Aceita alunos de todas as áreas. Alunos de curso profissionalizante recebem 50% da anuidade. Alunos de curso de Mestrado ou Doutorado recebem 100% da anuidade. Todos recebem passagem aérea, ajuda de custo de alojamento, bolsa manutenção (3.000 dólares por mês), seguro saúde e seguro viagem. https://internationaleducation.gov.au/Endeavour%20program/Scholarships-and-Fellowships/Pages/default.aspx
 
Mandei minha inscrição para a Endeavour, listando todas aquelas atividades extracurriculares que realizei, meus projetos, honras, prêmios, etc. Qualquer crédito que eu tivesse. E comecei a rezar.
5 meses depois recebo a notícia: Consegui a bolsa de 50% para um curso profissionalizante.
 
UM PRÊMIO MUDA TUDO
Pouco antes de receber a notícia da Endeavour, recebi outra notícia boa: O filme que fiz como TCC no curso na Chapman havia vencido um prêmio importantíssimo. Com esse prêmio, a Chapman me ofereceu outra bolsa integral para voltar e realizar meu Mestrado lá.
 
E isso me forçou a fazer certas escolhas difíceis. Agora eu precisava escolher entre voltar pros EUA, prum curso ótimo, mas custo de vida alto, ou pra Austrália, prum curso relativamente fraco, mas com bastante ajuda de custo.
 
Eu não queria voltar pra Chapman pro meu Mestrado. Até por pura questão de experiência, eu queria explorar um ambiente novo.
Mas…. beggars can’t be choosers. Além do mais, eu já tinha uma base na Chapman, de amigos, professores, administradores, reitores, que seriam uma imensa ajuda na hora de conseguir um emprego e conseguir um visto ou green card.
 
Por isso, rejeitei a oferta da Endeavour e aceitei a da Chapman.
Volto pra lá em Agosto pra começar meu Mestrado em Direção Cinematográfica.
 
E é isso.
 
CONCLUSÃO
Ufa! Não achei que fosse ser tão longo.
Ao longo desses anos, 3 coisas foram essenciais e me permitiram aproveitar as oportunidades quando estas apareciam.
 
  1. Planejar a longo prazo
  2. Apoio dos pais para me concentrar 100% nesses objetivos. Tive o luxo de não ter outras preocupações.
  3. Uma sede de informação. Foram muitos, muitos e-mails, sites e ligações telefônicas pra conseguir toda essa informação.
 
É possível que algumas coisas não estejam tão claras no texto quanto estavam na minha cabeça. Vou deixar o post aqui e continuar respondendo caso haja mais duvidas. Qualquer coisa edito o post pra atualizar.
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